Traficantes “assumem” escolas em Maceió
Conteúdo publicado por Divulgação em: 18/09/2013 às 15:02h.
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Urgencia190

Traficantes de drogas são os novos “donos” de escolas públicas em Maceió. O que parece ou parecia ser uma utopia se tornou um grande problema fomentado pela ausência do Estado nas áreas da Educação e Segurança.

Os bandidos encontraram na fragilidade do governo o novo “filão” para expandirem seus ilícitos negócios, que vão desde a comercialização da cocaína e crack, até assaltos e mortes.

As narrativas de professores e servidores de escolas de bairros da periferia, que chegam diariamente as Coordenadorias Regionais de Educação (CREs) e ao 181, o Disque Denúncia da polícia, surpreendem e comprovam o poder do tráfico.

A Polícia Militar (PM) mantém o trabalho ostensivo através de equipes do Batalhão de Policiamento Escolar (BPEsc). Os militares também fazem palestras para servidores e alunos das escolas e quando são informados da presença traficantes ou aluno vendendo ou consumindo drogas, fazem as prisões dos suspeitos. As ações também contam com a intermediação da Rede de Proteção Escolar, que atua na mediação de conflitos, além dos Projetos ‘Amigo do Aluno’ e ‘Paz na Escola: é Possível’.

Mas os dados mostram que as ideias colocadas em pratica não têm surtido efeito e a cada dia o tráfico tem se alastrado e feitos novas vítimas.

O tráfico

O mapa do tráfico em Maceió mostra como e onde os bandidos agem. Unidades escolares localizadas nos bairros do Jacintinho, Tabuleiro do Martins, Chã da Jaqueira, Vergel do Lago, Clima Bom, Feitosa, Cidade Universitária e no complexo Benedito Bentes são as mais usadas pelos criminosos, que diariamente recrutam alunos e até servidores para trabalharem para o crime.

Na Escola Estadual Maria Ivone, localizada no Conjunto Inocoop, no bairro Cidade Universitária, cerca de 300 crianças, mesmo matriculadas, continuam impedidas de frequentarem uma sala de aula.

Quando viva, a gerente do tráfico do Conjunto Denisson Menezes, Lilian da Costa Simon, 25, a “Paulistinha”, ordenou que alunos da escola que morassem fora do Inocoop não poderiam frequentar a unidade escolar. “Paulistinha”, que era amante de um traficante preso no Sistema Prisional, temia que grupos rivais alienassem menores de outras localidades e “tomassem” a escola, a qual ela mantinha um “prospero” ponto de venda de crack.

Mesmo morando no Denisson Menezes, um conjunto localizado por trás dos presídios de Maceió, a jovem tinha sido orientada pelo amante só comercializar no local crack e maconha, enquanto que uma quadrilha rival comercializava cocaína e alugava armas para serem usadas em assaltos e execuções.

Mas “Paulistinha” foi morta a tiros na noite de 6 de agosto (crime não esclarecido) e o bando rival, que assumiu o controle das operações, aumentou a abrangência das ordens. Agora motoristas de vans ou qualquer veículo que faça transporte escola na região, não pode recolher alunos residentes fora do “mapa” traçado pelos traficantes que assumiram o lugar de Lilian. A ordem é matar quem desobedecer.

O coordenador da 14ª CRE, Israel Nicolau da Silva, esteve reunido no último mês com os comandantes do Policiamento da Capital (CPC) e BEPEsc. Ele apresentou relatos de crimes acontecidos em todas as 33 escolas ligadas a 14ª Coordenadoria.

Na Escola Estadual Otacílio Holanda, no bairro do Tabuleiro, a direção foi obrigada a não aceitar segurança armada. Um dos principais traficantes da localidade manteve contato com funcionários e ameaçou que se a direção mantivesse os seguranças armados ele ordenaria uma “ação”. Amedrontados servidores e Estado recuaram e a escola, atualmente, serve como outro ponto de drogas. Dentro da unidade, inclusive em salas de aula, muitos alunos fumam maconha ou usam outros tipos de drogas.

O comandante do CPC, coronel Neuton Bóia confirmou que em Maceió 26 escolas, sendo 15 estaduais e 11 do municipal, integram a chamada “Rede do Tráfico”. Entre as escolas onde a venda de drogas acontece com maior frequência, conforme relatórios da Polícia Militar (PM) e das CREs estão a Miriam Marroquim, nas Piabas e Arnon de Mello, ambas no bairro do Jacintinho; Rubens Canuto, no Benedito Bentes; Maria Ivone e Denisson Menezes, no bairro Cidade Universitária; Zumbi dos Palmares, no Clima Bom; Geraldo Melo, no Conjunto Graciliano Ramos e Rui Palmeira, no bairro do Vergel do Lago; Maria Carrascosa, no Poço e na escola instalada no Caic do Vergel do Lago, a poucos metros do 1º Batalhão da Polícia Militar (1º BPM). Também preocupa os casos de tráfico em torno (do lado externo dos prédios escolares), de outras escolas em Maceió, sendo algumas particulares.

Na Escola Deputado Nenoi Pinto, no bairro do Clima Bom, alunos recrutados por traficantes, impõem o terror. A diretora da unidade foi obrigada a mudar de ideia após expulsar um aluno que se drogava durante as aulas. O adolescente, ao ser comunicado da expulsão, ameaçou a diretora, que temerosa em perder a vida, anulou o processo de exclusão. Há poucos dias um professor também foi ameaçado por um aluno que não aceitava, que naquele dia, houvesse aula para seus amigos. O professor teve de ir para casa sem concluir o trabalho. Ele procurou a CRE tentando uma transferência para outra escola, mas foi comunicado que a falta de profissionais impediam o remanejamento, forçando o mesmo professor ameaçado retornar para a sala de aula onde ele mantém os “encontros” com os delinquentes.

Na Margarez Maria Santos Lacet, localizada no Tabuleiro os alunos são vítimas de assaltos enquanto estão praticando aulas de educação física na quadra de esportes. Com ruas próximas que facilitam as fugas os bandidos, segundo as vítimas “dão as cartas”.

No dia 20 de agosto um assassinato marcou os alunos da Escola Municipal Arnon de Mello, no Conjunto José da Silva Peixoto, no Jacintinho. Em plena manhã, em uma rua movimentada, na presença de várias pessoas, era executado com tiros de pistola José Maria da Silva Júnior, 16. O assassino foi um jovem conhecido pelo prenome de Igor. O matador é o novo “cobrador” do tráfico da localidade, que foi ordenado executar o adolescente que tinha comprado drogas de outro traficante. José Maria estava persuadindo colegas, que estudam na escola, comprarem uma “droga melhor” de um amigo. Sempre armado e fazendo ameaças, Igor continua transitando pelo local.

No Miriam Marroquim, nas Piabas, o tráfico é comandado por Sergivaldo da Silva Santos, 37, o “Neno”, preso no mês passado. Morador de uma grota, que tem seu nome, a “Grota do Neno”, o bandido recrutava os filhos de alguns dos moradores para venderem crack e cocaína. Em sua expansão nos negócios, “Neno” também controla a comercialização das drogas dentro da escola, sentenciando a morte que o desafiar. Seu principal sucessor é José Maciel dos Santos, 20, o “Nem”, que é tido pela polícia como uma pessoa sem limites e que contabiliza diversos assassinatos. “Nem” também foi preso, mas mesmo no presídio, os dois permanecem comandando o tráfico nas Piabas.

Já no Maria Carrascosa, na entrada do Vale do Reginaldo, também no mês passado, um traficante ordenou que a merenda fosse roubada após a polícia apreender parte da droga que ele iria vender. A ideia era conseguir vender os alimentos para conseguir dinheiro para a compra de outra remessa de cocaína.

Outra situação de vulnerabilidade na área da educação de Maceió tem como “reduto” à escola que tem o nome do avô do prefeito da Capital. Na Escola Municipal Rui Palmeira, localizada no bairro do Vergel do Lago, traficantes há vários anos controlam até as eleições para diretores da unidade.

O município nega a informação confirmada por policiais da Delegacia de Repressão ao Narcotráfico (DRN), cujo delegado Ronilson Medeiros, que retornou a titularidade da especializada, possui nomes de bandidos que dentro ou fora das unidades mantém um “mercado” de venda de drogas. Em algumas oportunidades traficantes se reuniram em uma das salas de aula da escola, onde foi traçado o assalto a um carro dos Correios e a execução de integrantes de uma quadrilha rival. A reunião aconteceu em pleno horário de aula.

Casos recentes

No último dia 10 deste mês uma equipe da Polícia Militar prendeu Wellington Santos Moura, 25. Ele foi denunciado por vender drogas a estudantes em uma das escolas localizada no bairro do Santos Dumont.

Com ele foi apreendida cocaína, uma balança de precisão e R$ 890 em espécie. A droga havia sido colocada em uma bolsa encontrada pelos policiais escondida sob uma laje do muro da escola.

Já na quinta-feira (12) uma equipe do Batalhão de Polícia Escolar (BPEsc) foi surpreendida por dois jovens em uma moto parada no acesso a Escola Donizeta Calheiros, na Santa Lúcia.

As atitudes suspeitas dos jovens chamaram a atenção dos militares que quando se aproximavam foram surpreendidos por tiros deflagrados pela dupla. Na fuga os suspeitos deixaram cair um revólver calibre 38. Populares confirmaram para a polícia que os jovens vendem drogas a estudantes da escola.

50 mil crianças fora das escolas

A Prefeitura de Maceió, através da Secretaria de Educação (Semed) anunciou que até o final do ano serão gastos cerca de R$ 3 milhões com uma empresa privada de vigilância e câmeras. O valor daria para construir duas escolas. Mas, de acordo com a secretária de Educação, Ana Dayse Dórea, este orçamento deve crescer para R$ 4,5 milhões. Ela confirma que o dinheiro poderia ser utilizado em obras na área.

“São três creches que deixarão de ser erguidas por causa da segurança, mas a violência não pode crescer e temos que lutar”.

Ana Dayse, que já foi reitora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) revelou uma situação ainda mais alarmante na educação de Maceió. 50 mil crianças estão fora das salas de aula e Alagoas se mantém na liderança nacional em analfabetismo, evasão escolar e distorção idade-série.

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